Diário de uma professora na pandemia

Texto apresentado no Painel Temático 23 “Narrativas da pandemia nos cotidianos do ensino remoto: Estética e política nos usos das tecnologias de encontro” coordenado pela Profa. Nilda Alves no dia 20/10 às 18h na 40 Reunião Nacional da ANPED.

A partir de um fio narrativo ficcional, a personagem da história, Ana, uma professora universitária de 40 anos, mãe de duas crianças pequenas, apresenta algumas narrativas e reflexões do cotidiano de “ser professora na pandemia”.
A construção da personagem foi feita como um relato livre (SKLIAR, 2020) com o formato de diário, ou falso diário (CARRIÓN, 2020) inspirado em outras histórias, narrativas e relatos que a autora do artigo vivenciou em diversos cursos e encontros de formação docente entre maio de 2020 e julho de 2021.

A narração de histórias – e, especialmente, a ficção – foram utilizadas como um recurso metodológico, criando uma praticantepensante alegórica (NOLASCO-SILVA, 2019) que reúne múltiplas vozes, sob o signo de uma identidade única. Essa praticantepensante exerce no texto uma função de informante. Os praticantespensantes alegóricos funcionam, nesse sentido, como personagens conceituais.

Para Alves (2010, p. 1203), “Os personagens conceituais são, assim, aquelas figuras, argumentos ou artefatos que entram como o outro – aquele com quem se conversa – e que permanecem presentes por muito tempo para que possamos acumular as ideias necessárias ao desenvolvimento de conhecimentos nas pesquisas que desenvolvemos”. Esses personagens conceituais devem estar ali, para que o pensamento se desenvolva e para que se crie novos conhecimentos.

No diálogo com autores foram tecidas várias reflexões, especificamente sobre três questões:

1) a conexão precária e o direito à inclusão digital;

2) a centralidade dos encontros síncronos;

3) a reflexão sobre a própria prática docente em tempos de incerteza.

Questões consideradas importantes para pensar além do Ensino Remoto Emergencial na pandemia: o que significa educar na cibercultura?

Narrar a pandemia no formato de diário nos ajuda a guardar uma memória, que nunca é (nem será) intacta, mas uma memória necessária que, ao mesmo tempo, é uma invenção. O que nos deixa o diário da professora Ana sobre o Ensino Remoto Emergencial?

Ana habita vários professores ao redor do mundo. Ela encarna uma professora latino-americana, está no Brasil, mas, poderia estar na Argentina, no Peru, na Colômbia ou no México. Ela lida com as desigualdades do sul. Ela sobreviveu a duas pandemias: a pandemia da COVID-19 e a pandemia do negacionismo, das Fake News, da necropolítica incorporada pelo governo de Jair Bolsonaro no Brasil. A professora Ana e a educação pública das universidades brasileiras são sobreviventes, porém carregam lutos, perdas e muitas histórias que precisam ser contadas para podermos avançar.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *